
Estava voltando para casa depois da aula ontem, o ônibus estava meio cheio, daí abriu um lugar para sentar e eu fui até lá. Eu ia até lá. Antes que eu pudesse chegar à cadeira um outro homem já o ocupava. A primeira coisa que me veio à cabeça foi algo que envolvia a mãe dele e que não convém ser publicado, mas depois eu percebi que aquele homem tratava-se de um portador da Síndrome de Down e confesso, envergonhado, tive pena e achei que fazia uma boa ação.
Uma parada depois eu consegui me sentar no banco atrás do daquele homem e percebi que ele conversava com a mulher sentada ao seu lado. Mais duas paradas e eu já participava da conversa. Era fácil notar os primeiros fios de cabelo branco no contraste com o curto cabelo negro e as grossas sobrancelhas que, curiosamente, eram o que mais prendia minha atenção.
O que será que um portador de Down poderia estar conversando com dois estranhos no ônibus? Talvez eu mesmo fizesse essa pergunta antes desse episódio, pois saiba que foi aí que minha visão daquele momento mudou completamente. O homem dizia que estava estudando em uma escola que há perto da casa dele aqui mesmo
Orgulhoso do bom trabalho que vinha fazendo, contou-nos que já sabia o abecedário inteiro, um grande progresso, segundo o homem. Também contou, sorrindo, que estava fazendo aula de teatro! Eles estão preparando uma peça que irá se apresentar aqui,
Cheguei a minha casa e me sentei na cama. Sorria. Como eu havia sido ignorante mais cedo na ocasião do assento. Por que eu haveria de sentir pena de um homem tão feliz? De alguém muito mais feliz do que eu! Ele deveria sentir pena de mim, de todos nós, só que este homem sabe muito bem que o dever dele é aproveitar a vida, e o faz.
Só podemos chegar a uma conclusão com essa história. Como é ilógico esse tal preconceito. Seja contra quem for, um livro jamais deverá ser julgado por sua capa e uma pessoa, muito menos, pode ser julgada por sua aparência, por suas crenças, por suas deficiências, por suas escolhas ou por nada que não seja ela mesma.