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sábado, 21 de maio de 2011

É hoje!

Esta pode ser a última vez que estou escrevendo um texto. Pode ser a minha última madrugada fazendo coisas inúteis na esperança de uma pontinha de sono chegar e me levar para a cama. Esta pode ser a última vez que lêem o que eu escrevo, talvez a última vez que lêem. E para quem é virgem, essa é uma boa hora para se ter pressa! É hoje!

Não é segredo, o mundo inteiro tomou um choque ontem, dia 20 de maio, quando seguidores das ideias do matemático evangélico Harold Camping tomaram as ruas pelo mundo afirmando, categoricamente, pela segunda vez, baseados em um sistema numérico que o próprio Harold inventou, que o mundo acaba hoje! Não passaremos do dia 21 de maio do ano de 2011 depois do nascimento de Jesus Cristo.

Agora todas as coisas pelas quais estamos passando fazem sentido, todas as provações as quais somos obrigados a vencer periodicamente, tudo tem uma razão. Os onze Big Brothers Brasil, os dois mandatos de George W. Bush, Justin Bieber, Restart, Rebecca Black, Mensalão, Jair Bolsonaro, Tiririca, a Dança do Quadrado! Eram sinais e, nós, que não somos tão iluminados quanto o senhor Camping, não os enxergamos.

Pois é, chegou a hora do Juízo Final. E você estava preocupado com dezembro de 2012, né? Deu-se mal, foi fazer planos para fazer as coisas malucas que queria só no ano que vem, olha aí a zebra agora. Mas veja o lado bom disso. Não vai ter BBB em 2012!

Falando sério por um parágrafo ou dois agora. A irmã que é diretora da escola que eu estudo me disse uma vez que não devemos julgar as pessoas, mas como eu não prestei muita atenção, eu digo que o seu Harold aí colocou na cabeça que queria ser conhecido, isso desde pequeno, que queria fazer alguma coisa da qual as pessoas lembrassem. Chegou aos 89 anos sem conseguir lá muito sucesso e teve sua grande ideia. Vou assombrar as pessoas com aquilo que elas mais temem: o fim dos tempos! (risadas malignas aqui)

(Deu meia noite agora e eu ainda estou vivo, Mr. Camping.)

Porém, para tristeza, esse velho senhor fracassou em sua última e desesperada tentativa de fazer parte dos livros de história. É que existem tantas, mas tantas teorias sobre o apocalipse por aí que o assunto é banal. Eu estou aqui fazendo piada sobre ele. Talvez no dia 21 de maio de 2012, o Jornal Hoje – ou o Superpop – lembre que “faz um ano que o mundo acabou, de novo”, só que em 2013, depois de a gente ter zoado os Maias no dia 22 de dezembro, ninguém vai mais lembrar dele. A não ser claro, que ele corrija seus cálculos novamente e invente mais uma data para o fim do mundo (façam suas apostas nos comentários).

Não, esse não é o último texto que eu escrevo. Não, o Juízo Final não virá hoje e eu tenho plena certeza que mesmo que exista justiça divina, a gente extingue a espécie antes de Deus precisar fazer isso. Durmam tranquilos à noite, vocês irão acordar domingo para reclamar que a semana está começando de novo.

sábado, 2 de abril de 2011

O fim é uma droga


Dedico este texto a Daniel de Araújo, o homem que me deu o sobrenome com o qual assino hoje e meu avô para sempre.

O fim é uma droga. O fim da vida de alguém que se ama é pior ainda. Quando morrermos, é isso, não haverá mais dor, não haverá mais sofrimento, não haverá nada, mas quando essa pessoa que amamos parte e nos deixa aqui, sem o seu amparo, parece que somos nós que estamos morrendo.

Sentimentos dos mais variados tipos, de diversas intensidades, caem instantaneamente em nossas mentes e silenciam do peito o coração que chora com os olhos as lágrimas da dor visceral da perda. O cimento da selva sob seus pés se torna areia movediça e por mais que fuja das lembranças, que afaste seus pensamentos, qualquer movimento que faça acaba levando-o cada vez mais fundo em seu poço particular e intransponível de recordações.

O mundo é por diversos dias um local abominável. Qualquer sorriso à sua volta lhe causa raiva, faz-lhe sentir-se escanteado, como se ninguém além de você ligasse para sua dor, como se além disso, zombassem do seu choro. Nada o alegra, nada o anima, nada o motiva. Você apenas vive por faltarem-lhe as forças para deixar de viver.

E depois de assimilar um pouco a dor, aceitar que a vida é assim e, forçosamente, se convencer que foi o melhor ou que então era para acontecer, que estava na hora, você se entrega à única coisa que sabe fazer e faz, na esperança de que aquela pessoa para quem você escreve, possa ouvir-te, ver-te e saber, depois de você não ter tido a oportunidade de dizer adeus o quanto você a amou, por mais que jamais tenha dito isso.

A vida simplesmente continua, impiedosa, mas com você vai embora uma parte dela. Obrigado pelas lembranças que o senhor deixou para mim, vovô.

Por Davi Araujo, neto orgulhoso de Daniel de Araújo.