Mostrando postagens com marcador realengo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador realengo. Mostrar todas as postagens

sábado, 25 de junho de 2011

Reféns do medo

Há algumas semanas a escola onde estudo em João Pessoa vem fazendo uma série de “melhoramentos” na sua área de segurança. Medidas simples como a instalação de câmeras, alarmes e a contratação de seguranças para permanecer durante todo o dia na porta do colégio. Fiquei curioso e perguntei o porquê daquilo tão repentinamente. A resposta me surpreendeu.


- A irmã (trata-se de uma escola católica) está acatando o pedido dos pais dos alunos do infantil. Eles disseram ter medo de acontecer aqui o que aconteceu em Realengo.

Usando de toda a educação que é possível usar para me referir a atitude desses pais: Eles precisam estar de sacanagem.

Tem alguma coisa, no mínimo, muito errada na cabeça dessas pessoas de chegar a imaginar – melhor, temer – que vá acontecer em uma escola como a qual eu estudo algo se quer parecido com o “Massacre de Realengo”. Especulando, mas com bastante convicção, para a irmã ter cedido às pressões, esses pais são pessoas “de posses” com algum poder de barganha, então temos um retrato assim. Ricos covardes ensinando suas crianças ricas a serem covardes, não se defenderem do mundo e ainda pagar outros para levar o tiro por você. Palmas.

Independente de estar ensinando alguém ou não, nós jamais – jamais mesmo – devemos nos tornar reféns do medo. Temos a obrigação de não ditar nossa vida no passo que querem aqueles que margeiam a sociedade e a lei. Não é porque um pivete pode me assaltar que eu vou deixar de andar na rua. Não é porque pode ter arrastão que eu vou deixar de ir à praia. Se é assim que esses pais pensam... Que façam o melhor e tirem logo seus filhos da escola, afinal, eles podem levar um tiro de um maníaco religioso lá dentro.

Nós já precisamos viver enjaulados, com portas trancadas e suando de calor por não poder abrir a janela à noite e só precisamos disso, porque fomos e somos indiferentes à violência. Achamos que é dever da polícia cuidar disso e esquecemos que a polícia serve a nós, que somos os comandantes dos comandantes daqueles que saem pelo morro colhendo suborno para fazer vista grossa para os nossos assassinos. A sociedade está doente e nós somos a sociedade.

Existem vários tipos de pessoas, claro, e podemos separar aqueles que fazem a diferença e os inúteis. Reféns do medo são inúteis.


quinta-feira, 7 de abril de 2011

Dessa vez em Realengo


De novo. É extremamente óbvio falar sobre violência, é um tema fácil, corriqueiro, mas enquanto crianças forem executadas, eu não vou parar de tocar no assunto. Cheguei à casa da escola hoje, liguei a TV para me fazer companhia durante o almoço (depois eu falo disso) e fui surpreendido com a notícia do que aconteceu na Escola Municipal Tasso da Silveira em Realengo no Rio.

São por volta das duas da tarde agora e por enquanto o número de vítimas fatais de Wellington Menezes de Oliveira é de onze (além dele mesmo que também morreu). Não consegui encontrar em nenhuma mídia qualquer coisa que indicasse que este homem portasse qualquer doença que o pudesse levar a exterminar essas crianças, então não vou passar a mão na cabeça de ninguém.

Não estou preocupado em seguir qualquer estrutura literária, ou fazer ligações intertextuais, nem ao menos me posiciono como cronista neste texto, apenas como mais um brasileiro indignado pela perda de onze “futuros”, parafraseando nossa presidente.

Por mais que todos nós já tenhamos visto casos como este nos jornais, desta vez foi muito próximo, foi com a gente e, por isso, vai doer muito mais. Vai ter muita gente na rua fazendo passeata, pedindo paz e todas essas coisas que Max Gonzaga canta em Classe Média. Mas na boa, alguém tinha dúvida que ia chegar a nossa vez de ver algo assim?

Quem é do Rio, de São Paulo, ou de qualquer outra metrópole, sabe a influência que o tráfico pode ter na vida das pessoas quando quer. Aquele tipo de coisa que não passa no Jornal Nacional. Quem acompanha as invasões da polícia fluminense às favelas para a implantação das UPPs, vê a quantidade de armas que são apreendidas – e não vê as que não são. É muito mais fácil conseguir uma arma do que deveria ser e parte da culpa disso é da sociedade que disse “não” no referendo sobre o desarmamento em outubro de 2005 (para quem não tem memória curta e ainda lembra disso).

É claro que foi um caso isolado, é claro que a violência ainda é exceção, mas a facilidade com que aconteceu, apenas mostra como é frágil o nosso sistema de segurança. E aqui, não me refiro apenas ao Wellington (o qual eu adoraria que estivesse vivo para pagar o que deve à sociedade), me refiro a tudo, tudo o que acontece, toda a impunidade e toda a acomodação. Eu vou para escola todos os dias, o Roger, o Mateus, talvez você, talvez seu filho, poderia ter sido qualquer um de nós.

Vá sim às ruas, faça sim as passeatas, lute sim pelos seus direitos, pela sua vida, mas faça isso sempre que for preciso, o que no nosso caso é sempre, ponto. Porque a diferença desse assassinato para os outros tantos que acontecem todo dia é só o número e a idade das vítimas.