
Essa semana eu vi uma cena linda. Mais um daqueles fatos ordinários do dia a dia que normalmente não percebemos e que são a tônica dessa coluna. Eu estava sentado no mercado de peixe, esperando meu tio terminar a compra quando chega lá um homem, sendo mais específico, um homem de uns quarenta e poucos anos vestindo a roupa do trabalho, faxineiro.
Ele se aproxima do balcão, escolhe com cuidado o que vai pedir e proclama imponente para a vendedora:
- Sete reais desse camarão aqui, por favor.
Sete reais de um camarão cujo quilo custava trinta e cinco. São duzentos gramas de camarão, pouco mais de cem que podem ser consumidos. Nessa hora, eu sentia pena, tinha dez reais no bolso e me preparava para oferecê-los para aquele homem que era muito mais merecedor desse dinheiro do que eu. Fazer a minha boa ação do dia, alimentar meu egoísmo, para não me sentir culpado à noite.
Mas quando eu me levantei para ir falar com ele, vi uma coisa que dificilmente irei esquecer. O sorriso daquele homem. A satisfação de pegar os únicos sete reais que tinha no bolso e comprar aquela comida boa para sua família. Eu o imaginei chegando em casa com o camarão, entregando-o à esposa e fazendo uma surpresa para a filha que completava aniversário e que quase nunca comia sua comida preferida.
Meus olhos umedeceram e, por reflexo, tirei a mão do bolso. Não, eu não tinha o direito de oferecer aquele dinheiro para esse homem. Aquele era o momento dele. O momento de satisfação pessoal. O momento em que um pai, que trabalha como um louco para tentar dar conforto para sua filha consegue lhe preparar uma surpresa, comprar um presente. E nem eu, e nem ser humano nenhum no mundo, tem o direito de manchar a honra de um pai em um momento tão bonito como esse.
Esse homem, o qual eu nunca mais verei, que eu não sei o nome, me fez presenciar uma das cenas mais bonitas que alguém pode presenciar. A felicidade. Pura e completa felicidade; ao vê-lo carregar aquele punhado de camarão como um bebê, enquanto, ainda sorrindo, ia embora quase flutuando na leveza dos seus passos. Por um momento em uma vida de luta, esse homem foi feliz, e me fez lembrar que há muita coisa pela qual vale a pena viver.
Tocante...
ResponderExcluirque lindooo, depois dessa.. hah
ResponderExcluirSerá que ele fez um risoto? Ou fritou-os no alho e óleo?
ResponderExcluirDeus, que dúvida!
Tem um texto clássico, acho que do grande cronista Rubem Braga, que é a cara desta tua crônica aí.
Parabéns.
Sim, tem muita coisa pela qual vale a pena viver... Shrimp is certainly one of them!!!!!