domingo, 10 de abril de 2011

Primeiras-damas de araque, digo, Alagoas


No final do mês passado, dezesseis pessoas foram presas nas Alagoas por desviar dinheiro público para a compra de bens pessoais. Nenhuma novidade até aí, mas a revolta surge quando você diz na lata: No final do mês passado, dezesseis pessoas foram presas nas Alagoas por desviar oito milhões de reais da merenda de escolas públicas do interior paupérrimo do estado para comprar uísque, vinho e ração de cachorro. Alguém lembra do que eu falei em "Vida de cão"?


Por que esse caso é diferente dos outros? Imagine uma criança que mora em Traipu (IDH 0,47, o mesmo do Quênia). Essa criança vive abaixo da linha da pobreza, não tem comida em casa, vai para a escola só por causa da merenda, contando com aquele prato de comida como a única refeiçao do dia. E se essa criança não tiver essa merenda?


Então deixa eu ver se eu entendi. A criança de Traipu pode morrer de fome, não tem problema, mas os secretários e ex-secretários presos não podem ter o nível alcoólico no sangue reduzido. Faz sentido. E eu acredito que tenha sido de bom grado, pelo amor aos animais, que essa criança abriu mão da sua comida para comprar a ração do totó das secretárias, ex-secretárias, ex-prefeita e primeiras-damas que foram presas também.


Nós brasileiros nos acostumamos a ver absurdos quando se trata de corrupção, mas - que bom - ainda nos resta um bonito instinto protetor às nossas crianças e casos como esse não passam desapercebidos pela população e, muito por isso, os culpados acabam sendo punidos. Ótimo. Só que eu tenho uma leve tendência a não estar plenamente satisfeito. Por que os culpados dos outros casos também não são punidos?


A justiça do nosso país não pode funcionar por combustão popular. Qualquer um que olhe os rostos dos vereadores da sua cidade pode apontar pelo menos um grupo que todo mundo sabe que é "ladrão", então, por que não se prende esses ladrões? Bem, disso todo mundo também sabe. Mas e se a gente precionasse? O Projeto Ficha-limpa é o exemplo. Então, ao invés de nos comover com casos de "apelo popular", a gente podia se comover com a situação do nosso país que jamais foi "um país de todos". Claro, exceto para as primeiras-damas.

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